sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Tempo e Espaço

Para meu amigo imaginário, Edu
O vendedor de pipocas abandona seu posto: a porta da Igreja. O relógio-grande marca dez para meia-noite. A máquina do redeshop não completa a transação, o dono da antiga farmácia irritado com o aparelho mostra seu sotaque português. Na porta, uma moça loira – de uma cor de cabelo que só existe nas telenovelas– flerta com o atendente, sua boca vermelha espalha um cheiro de chiclete ping-pong, com a destreza de uma jogadora, cruza as pernas.
No ponto de ônibus uma senhora pede dinheiro para o café, informa que já tem uma parte, mas precisa interar. A garota que espera a carona lhe oferece um pedaço de ciabatta. Ao fundo, vindo de um boteco, escuto a voz ardida do garçom que faz questão de dizer que é gay , se é que boteco tem garçom.
Uma punk onisciente para em minha frente. Uma digna Deusa da Urbanidade com seu enorme moikano de raízes vermelhas, o rosto de um branco tão branco que não encontro humanidade nele, suas roupas rasgadas reluzem a vitória de alguém que parece ter saído de uma guerra, que sem ao menos ter lutado consagrou-se vencedora. Ela me olha como se questionasse “ a minha alma” . Eu me pergunto, será que o “corpo dela apodrece?". Linda!
A transação é feita, o atendente embaraçado desculpa-se pelo transtorno. Caminho, a garoa mais do fina me acompanha. Um bêbado me encara, abaixo os olhos e seguro firme meu resfenol. Ele balbucia: o que é a vida? Senão a própria vida.
Levanto a cabeça e vejo dezenas de quadrados coloridos – as janelas vestidas com suas cortinas. Tal qual um caleidoscópio em que atrás das cores se revelam vidas.
A senhora pede dinheiro para a jovem no ponto de ônibus, ela repete não ter e que está ali só esperando uma carona. "É, mas a sua carona tá demorando, né? Você não quer esse dinheirinho pra pegar o ônibus?" diz a senhora-pedinte.
Miro o horizonte, aprumo meu caleidoscópio e pisco. Afinal, as combinações são infinitas.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Rua das Flores


No coração da cidade, a Sé, existe uma rua chamada Flores. Mas não existem jardins lá, nas calçadas duras-de-sujas brotam seres humanos. Assim como você e eu, feitos de carne e ossos.
A placa de aluga-se amarela com o tempo. O prédio espera os moradores que não chegam. O degrau do portão é o travesseiro de quem não tem nada além de sua pele gasta. Um de nós sem endereço para receber cartas ridículas, como toda boa carta de amor. Sem porta para abrir e sentir o cheiro do café que vem da cozinha. Sem chão, sem teto.
Aos poucos, nos distinguimos, nós e eles. Transformamos humanos em animais. Nos recusamos a olhar para o espelho, do contrário, veríamos lindos cavalos adestros que só enxergam o caminho à sua frente. Cavalgamos presos aos nossos cabrestos sociais com sede de acumular egos ou cartões. Mas a esperança é que o Cabresto, por força ou acaso, se desfaça. Nerudas nasçam pra dizer que a dor de um ser morreu na vitória de todos. Assim como o sono deles é a nossa insônia.
Um de nós dorme agora na rua das Flores.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Extra-extra-extra!

O Pitadas foi homenageado pelo Pulaomuro . Uma retrospectiva linda! Obrigada, Júlio!

Quem sabe um post?


Eu quero escrever tanta coisa, mas sou aquele velhinho que foi vencido pelo jabuti na luta contra o degrau de sete centímetros. Só me resta deixar as palavras caírem como pingos, aqui e acolá. Feito chuva.
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Já passava da 1 da madrugada, a Consolação estava só. Chovia tanto que não havia espaço para maldade. Caminhei pelo meio da rua, faróis verdes ou vermelhos não faziam mais sentido. Em meus ouvidos: o choque bruto da chuva contra o guarda chuva. Retardei o quanto pude os quarteirões que me levavam até a minha casa.
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Ela está lá, pendurada na porta do pequeno guarda roupa. Luiz Francisco* costumava passar cuidadosamente a camisa do seu Corinthians e saía pela rua exibindo a liberdade das grandes paixões. Faz tempo que ele não veste sua liberdade, com medo de que seu barraco suma sem mais nem porquê, ele não vai mais ao estádio.
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A moça dança com a taça de dry martini na mão, no ritmo do rock n' roll mergulha dos dedos na taça e os desliza nos lábios do parceiro.
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Solte seus cabelos, foi o que ele pediu a ela que sempre viveu com os cabelos presos.
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Abri um livro em um sebo e encontrei essa foto, deixei o livro, mas levei a foto.
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Talvez, só talvez, tudo isso não passe de uma chuva tão forte que corre em direção ao bueiro e quando acaba, perguntamos: será que choveu? Com sorte, teremos sol amanhã.
* Luiz Francisco foi um dos entrevistados por Marcos Faerman na reportagem: Gênesis

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Perfume

A vizinha, nunca a vi, mas sinto o perfume de sua comida. Ela e seus aromas são os maiores inimigos da minha independência, tenho vontade de correr pra casa dos meus pais. Esperar o bife na sala, e pensar, boba que só, que o chiado que vem da cozinha é chuva. Cebola refoga!
Perfume me faz lembrar da dona Ana - ela tinha uns 60 e eu uns 8 - uma senhora suave com seus vestidos florais e sapatilhas de pano nos pés, caminhava sem pressa, carregando uma sacola de feira cheia de frutas. Percorria a vila vendendo as delícias do seu sítio. A minha fruta preferida era a Laranja Lima, raramente tinha na sacola dela. Não à toa,representava muito espaço, peso e baixo custo. Para comprar minhas laranjas, tinha que acompanhá-la até sua casa, era sim lá no interior. A casa sempre fechada e muito escura. Ela pedia que eu esperasse e ia abrindo aos poucos as janelas e portas da sala em direção à cozinha, a casa cheirava a pomar: banana, abacaxi, laranja, manga. Laranja Lima! O idioma da dona Ana era o da dúzia: meia dúzia, uma duzia, duas dúzias. Eu dizia: quero quatro, dona Ana. Ela, meia dúzia, né fia? Eu concordava. Era sempre a mesma coisa, mostrava as laranjas e depois sumia pela casa adentro a procura de uma sacolinha, escutava ao longe o barulho do plástico e o arrastar das sandálias em atrito com o chão. É, a casa da dona Ana era como um perfume lacrado, quando ela abria a porta, no breu, sem saber ao certo onde estava, sem ver nada, meu olfato era aguçado de uma maneira que, sentia violentamente o buquê das frutas invadir o meu nariz.
Como os sentidos se completam, corria pra casa e pedia para meu pai descascar, ele fazia o chapeuzinho do vovô - é quando você não parte a laranja ao meio, só faz uma tampinha bem pequena. Infalível, sempre doces as Laranjas Limas.
Há alguns dias uma fragrância me acompanha, não vem da vizinha, nem de algum pomar longínquo. É a essência de uma pessoa, seu perfume: essa junção de elementos que o tornam único. Maior que minha curiosidade, só o meu medo. Sem pulmão para respirar fundo, inalei paulatinamente o moço. Temi a embriaguês. Mas como um sentindo leva ao outro, ainda sinto seu gosto na minha boca.
Há quem diga que, quando se vive o mágico, leva-se seus fragmentos por toda a vida. Assim como dona Ana que vendias as frutas, mas retinha em sua casa o perfume. Guardo as essencias que a vida me dá no silêncio da minha memória, e, aos poucos - diante da visita - vou abrindo as janelas da minha alma.
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Convite para um Baile Perfumado

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Cooperifa

Era quarta – feira, porque quarta-feira é dia de Cooperifa, faça chuva ou mais chuva. Os índices pluviométricos alertavam que não chovia tanto no mês de Julho desde de 1943. E a cidade que não pára, não deixava ninguém prosseguir no trânsito. Mas chegamos, com muito frio, mas há tempo. O Guilherme que já conhece e sabe o que é bom, pediu um escondidinho e duas cervejas pra aquecer o corpo, pois a alma estava reservada à poesia.
O simpático Márcio Batista, exímio Anfitrão, sentou-se em nossa mesa e aplacou a sabatina dos perguntadores. Contou que, a Cooperifa surgiu de uma idéia de Sérgio Vaz, em 2000 reuniram-se por volta de 50 artistas e 200 pessoas em uma fábrica vazia em Taboão da Serra para um sarau. O grupo se expandiu e passou a se apresentar no bar do Bodão, também em Taboão da Serra, os sócios venderam o bar e os poetas choraram sem ter espaço para os encontros. Porém a cooperativa encontrou seu canto e, a partir de 2002, o reduto tornou-se o Bar do Zé Batidão, Piraporinha, Zona Sul de São Paulo.
Para Márcio, quando os moradores da periferia olhavam para o futuro, viam refletidos no espelho dois destinos: “ o do trabalhador que deu certo e do marginal. A Cooperifa mostrou que outro caminho é possível, o mundo das artes e da comunicação”. Como esse caminho passa pelo conhecimento, muitos moradores voltaram a estudar.
A Cooperativa de poetas é um espaço aberto à poesia, rap, estequetes teatrais, crônicas e, também, um divulgador de outros eventos culturais que acontecem na região.
Quem vai à Cooperifa é cooperiferico, quem fala ao microfone é poeta. Então, façamos silêncio: o Sarau vai começar. A poesia é uma prece, e a única regra durante a oração é o silêncio.
As estrelas da noite vão passando e nos encantando com os sons, as cores, as paixões e os desejos de suas poesias. Até que, Sérgio Vaz, idealizador do projeto, recita Porém, nele: “ As palavras sempre me vieram como culpa e não como estrelas”. Ainda sem ar, escuto o poeta Fuzil, conhecido como metralhadora de palavras, dispara Ferreira Gullar em Bomba Suja: "Quem come o arroz que ele plantou?"
Ph Mc, um garoto de aparentemente 15 anos, com rap nos olhos e muita vontade nas mãos esbraveja: “ nossa alma jamais vão trancar”. Quando me pergunto, é isso que se produz aqui? Wesley responde. "O que se produz na geografia da Dor? Eu digo: beleza, força e vivacidade. É o que se produz". "E amigos e inimigos debaixo do mesmo teto", segundo Márcio.
Assim como a árvore que assiste a tudo, bem no meio do bar – o palco dos poetas – a Cooperifa também tem raízes, outros projetos e eventos. Entre eles o Joelhaço: homenagem ao dia internacional da mulher, em que os homens se ajoelham, simbolizando um pedido de desculpas pelas agressões cometidas. Balões com poesias são soltos ao vento em abril. Chuva de livros, uma vez ao ano, todos os presentes no Sarau ganham livros. Cinema na Laje, com sessões de documentários sobre a periferia.
Olhando os poetas, percebo que estou longe de dar conta do vivido. Esses retalhos de poesias transcritos aqui, não são nada perto de tudo que eles tecem. Mais importante que dizer o que é a Cooperifa, é viver a Cooperifa. Tomo para mim, as palavras do cooperiferico Quintela, sobre uma conversa com Sérgio Vaz: "Eu não choro por uma rudez minha, mas dá vontade”

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Rabisco de Fábula

Marianinha é o nome da mariposa teen, é assim que ela se define. Sempre com as asas rigorosamente lisas, por sua aqua-chapinha, que alisam sem retirar a umidade e o brilho de suas asas.
O sonho de Marianinha , a mariposa, é ser uma borboleta. Seu pais não entendem o porquê disso. É sempre um bater de portas, horas ao telefone e muitas lágrimas, tudo por um único motivo: ser o que é - uma mariposa.
Para seu pai, é uma ofensa, geração após geração de mariposas e Marianinha querendo ser borboleta. Nos somos raros, borboleta tem em qualquer lugar, mariposa não! Mas não adianta, não há quem consiga fazer Marianinha arredar asas de sua vontade. Sonha em ser uma das bailarinas do conservatório Floral das Borboletas do Além Terra. De repente um grito do quarto de Mariana – que não passa de uma fissura no tronco de um Ipê roxo - Com os olhos arregalados lê: Concurso Seja Uma Super Pop Borboletinha. A revista Carrapicho promete transformar qualquer espécie voadora : abelha, mosca, mariposa etc... em uma super pop borboletinha. Basta enviar uma resposta dizendo porque você merece ser escolhida .
Marianinha enviou duzentos e cinquenta e-mails e uma animação. No dia do resultado, escondida de seus pais, bateu asas e voou em direção ao seu destino. Em sua pink mochila, seus talismãs: sua aqua-chapinha e o brochinho que sua avó lhe dera quando ainda era bebê – uma mariposa e uma borboleta de mãos dadas . No meio do caminho, uma bifurcação, e ela não sabia para onde ir, à direita ou à esquerda? Encontrou um Grilo lindo, nunca tinha visto um tão elegante, de um verde que se desprendia no ar. Perguntou se ele conhecia o Jardim Novo Mundo. Ele disse que era funcionário do pedágio, e que, pela nova aerovia, chegaria muito rápido, só que para isso, deveria deixar algo de valor com ele.
Marianinha abriu a mochila, só havia seus dois talismãs. Pegou o broche, mas lembrou da sua avó, dos domingos de cafuné e bolinho de chuva, recuou. Ofereceu a aqua-chapinha. O Grilo insistiu no broche e provocou: pela aerovia eu garanto que chega antes do anoitecer, mas pelo outra caminho, com o ar rarefeito e todos s perigos da floresta não saberia dizer. Marianinha, apesar de mariposa, tinha pavor do escuro. Respirou fundo, abertou a Pink mochila contra o corpinho e seguiu pelo caminho mais longo, mas com broche.
Cansada de voar, parou na beira de um lago para beber água. Já estava anoitecendo, logo seria revelado a ganhadora do concurso, e ela ainda estava muito longe, perdida. Foi quando ouviu um barulho. Quase um arroto. Pensou, quem é o porco? Mas não era um porco, era um sapo. Flavinho, o sapinho gente boa. O sapo questionou: o que uma Mariposinha faz uma hora dessas longe de sua árvore? Marianinha lembrou de seu pai, fique longe dos sapos, eles abrem a boca e baú-bau. Mas sem que, nem porquê, simpatizou com o Flavinho. Talvez por conta dos suspensórios. Concluiu silenciosa: ah! uma pessoa malvada não usaria suspensórios coloridos. Contou sua história para Flávinho, que achou estranho, com sua voz eloqüente sonorizou: eu nunca quis ser príncipe, mas, contemporizou, cada bicho com sua espécie, né? Emendou, baixinho, mas eu prefiro as mariposas.
Esticando seu suspensório ordenou: Marianinha, suba nas minhas costas, vou te levar ao Jardim Novo Mundo. Ela aceitou, e de pulo em pulo chegaram em um suspiro. Foi um susto desejado, mas um susto quando dizeram seu nome. Ela chorou por dentro, já que esquecerá de passar o rime à prova d’agua, e não convinha dar uma de mariposa, agora que seria borboleta. Borboleta não chora, ri, disse o anunciante da Carrapicho. Anunciou: você será uma super pop borboletinha luminosa. Ninguém à reconhecerá. Nem meus pais? Nem eu, perguntou o Flávinho. Ninguém. Além da transformação corporal, faremos uma educação celebral. Você terá lembranças borboletais, nunca saberá que um dia foi uma mariposa na vida. Não é fantástico? Marianinha chorou, não se importou em borrar à fantasia, doeu abrir mão de seu sonho. Escolheu o caminho mais longo, à sombra das mariposas ao sol das borboletas.